Vou comentar outro assunto que foi alvo de críticas dos estatísticos: o artigo escrito pelo jornalista Cláudio Ângelo ( http://bali40graus.folha.sites.uol.com.br/perfil.html ), editor de Ciência da Folha de S.Paulo.
O artigo, publicado em 25/08/2008 - 15h18 (também na mídia impressa), entitulado "Estatístico tenta convencer o mundo a não combater o efeito estufa" ( http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambi ... 7615.shtml ) critica o cientista político Bjørn Lomborg pelo seu ponto de vista sobre as novas teorias do Aquecimento Global.
Todo mundo sabe que esse tema é polêmico e Lomborg não é o único a criticar o que, supostamente, a maioria dos ambientalistas e seus simpatizantes dizem concordar: que o mundo está aquecendo, que devemos controlar a emissão de carbono (CO2), que devemos cuidar mais do meio-ambiente, reciclar etc etc etc.
Ambos os lados usam e abusam de dados estatísticos, fazem críticas e travam brigas apaixonadas em nível mundial.
25/08/2008 - 15h18
Estatístico tenta convencer o mundo a não combater o efeito estufa
CLAUDIO ANGELO
editor de Ciência da Folha de S.Paulo
Em um evento recente em São Paulo, um jornalista perguntou a Bjorn Lomborg por que ele insiste em dizer que o combate ao aquecimento global é economicamente inviável. Afinal, o IPCC (o painel do clima da ONU) já mostrou que um corte de gás carbônico maior que a meta do Protocolo de Kyoto pode ser feito a custo zero.
O estatístico dinamarquês, um dos mais ilustres céticos da mudança climática, respondeu que não acreditava nesse tipo de conta. "Se é tão barato, por que ninguém está fazendo?"
No segundo parágrafo de seu livro "Cool It - Muita Calma Nessa Hora!", recém-lançado no Brasil (Campus/Elsevier, 224 págs., R$ 59,90), Lomborg parece cair vítima do próprio argumento. Diz que a "histeria e o gasto desenfreado" com programas "extravagantes" de corte de CO2 são uma escolha questionável num mundo em que "milhões morrem de doenças tratáveis e onde é possível salvar vidas, fortalecer a sociedade e melhorar o meio ambiente por uma fração do custo". Ora, é caso de perguntar: se é tão barato, por que ninguém está fazendo?
Esse tropeço na lógica é só o aperitivo do que aguarda o leitor que for buscar em "Cool It" um antídoto saudável contra a suposta histeria ambientalista. Ele encontrará um malabarismo com números que dá razão à máxima de Benjamin Disraeli sobre os três tipos de mentira: há as mentiras, as mentiras deslavadas e as estatísticas.
Lomborg ganhou projeção mundial em 2001, com o livro "O Ambientalista Cético". Na obra, de 515 páginas e 2.930 notas de rodapé, o dinamarquês abusa das estatísticas para argumentar que a Terra não está atravessando uma crise ambiental e chama o alarmismo ambientalista de "Ladainha".
Em "Cool It", o "cético" centra fogo no tema da mudança climática, batendo na mesma tecla: o custo trilionário de cortar emissões não vale o benefício pequeno de um mundo "ligeiramente" menos quente no futuro. Como os recursos financeiros do planeta são limitados, melhor aplicá-los em coisas que salvarão mais vidas e tornarão a sociedade mais rica, como o combate à Aids.
Para provar sua tese, Lomborg recorre aos mesmos velhos truques: afogar o leitor com números e notas de rodapé (aqui são "apenas" 607), selecionar cuidadosamente as evidências e passar de contrabando uma série de falácias argumentativas em meio a um ou outro ponto razoável.
Urso-de-batalha
Um exemplo é o caso dos ursos-polares. Segundo
o autor, o corte de emissões de gases-estufa salvaria 0,06 urso por ano --é o total de declínio da espécie que poderia hoje ser atribuído à mudança climática. Por outro lado, 49 ursos são mortos a tiros todo ano.
Conclusão: se quisermos ajudar os ursos, devemos parar de atirar neles em vez de gastar trilhões de dólares para cortar os gases que causam o degelo do Ártico.
A proposta faz pleno sentido. A menos, claro, que se considere que um eventual degelo total no futuro acabaria com os ursos de qualquer maneira, tornando inútil a economia de balas. Espertamente, Lomborg omite a projeção de futuro.
Em outras passagens, o autor seleciona projeções do IPCC para estendê-las ao absurdo. O degelo acelerado do Himalaia, por exemplo, é apresentado como uma coisa boa, porque, afinal, aumentará a quantidade de água disponível no verão para a China e a Índia antes que os glaciares que alimentam os rios asiáticos se acabem. "Assim, (...) boa parte do mundo poderá usar mais água durante mais de cinqüenta anos."
Adiante, numa cena de circularidade explícita, Lomborg primeiro nega que a mudança climática vá causar o enfraquecimento da corrente do Golfo, algo que faria a Europa mergulhar numa era glacial. Mas, se isso acontecesse, seria uma "vantagem": afinal, com o aquecimento global a Europa ficaria mais quente, não é? Pois então: com a corrente do Golfo mais fraca, a Europa ficaria menos quente. Portanto, seguindo esse raciocínio, o melhor remédio contra o aquecimento global é o próprio aquecimento global (!).
Lomborg ataca, corretamente, os custos altos e os benefícios pífios de Kyoto na redução das temperaturas no século 21. Segundo suas contas, Kyoto adiaria a catástrofe em apenas sete dias.
Mas aí ele estende a crítica a qualquer outro acordo futuro que aumente os benefícios ao reduzir mais estritamente as temperaturas no fim do século. Pior, argumenta que o corte radical de emissões ceifará 3% do PIB mundial por ano até 2030, quando o IPCC diz que esse será o gasto máximo total no período.
A fúria estatística boboca de Lomborg deixa a questão de 1 trilhão de dólares sem resposta: por que, afinal, ninguém está fazendo nada para salvar o planeta investindo em políticas sociais, como ele sugere?
Um cínico diria que, na área social assim como no clima, corrigir distorções de mercado ("fazer o bem", nas palavras do autor) requer um bom dedo de regulação. Palavra que não agrada ao público fiel que o dinamarquês tem em Washington --e que a ele recorre sempre que precisa de uma desculpa sexy para poluir à vontade.
Em diferentes listas e ocasiões, alguns estatísticos reclamaram um pedido de desculpas do jornalista após duras críticas ao seu estilo um tanto quanto truculento de falar da estatística. E, da forma como identificou o cientista político Lomborg, anunciando-o como "o estatístico dinamarquês", e o fato de ter usado a famosa frase de Disraeli, é normal que pensemos que o jornalista não gosta de estatística -- tampouco de estatísticos.
Polêmicas à parte, enviei ao jornalista uma mensagem reclamando como ele nos tratou e pedindo uma retratação pública.
Veremos como ele responderá........ se é que ele vai.
Cópia da mensagem enviada:
From: info conre3 <info@conre3.org.br>
Date: 2008/9/5
Subject: Artigo irrita classe dos estatísticos
To: cmonteiro@folhasp.com.br
Cc: André Arantes <andre@camargoarantes.adv.br>
Prezado Cláudio Ângelo:
Em recente artigo seu, "Estatístico tenta convencer o mundo a não combater o efeito estufa" (http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambi ... 7615.shtml), o tom que você usa para criticar Bjørn Lomborg acaba, de carona, denigrindo a imagem dos estatísticos.
Para começar, Bjørn Lomborg é Cientista Político, e não um estatístico (vide site pessoal dele). O que você poderia ter feito é ter concluído que, fosse ele um verdadeiro estatístico, talvez não tivesse chegado às mesmas conclusões após analisar números coletados de tantas fontes diversas. Gostaria de destacar que todas as análises feitas contra ou a favor das novas teorias sobre as mudanças climáticas, se forem feitas com forte inclinação política e/ou "fé-cega" estão sujeitas a severas críticas.
Análises estatísticas devem ser feitas com seriedade e isenção, analisando tantos apectos quanto possíveis dos números em questão. Em contraposição à famosa frase do Disraele, há outra muito melhor: É fácil mentir com estatística, difícil é dizer a verdade sem ela.
Seu artigo desagradou profissionais e docentes da área estatística e seria muito ético de sua parte retratar-se publicamente se a sua intenção não foi criticar o profissional da Estatística de forma generalizada.
Atenciosamente,
Doris Satie Maruyama Fontes
Estatístico CONRE n_o 7386-A
Coordenadora Geral
CONRE-3 - Conselho Regional de Estatística da 3ª Região
info@conre3.org.br
www.conre3.org.br
PARTICPE DO FÓRUM ESTATÍSTICO: http://www.conre3.org.br/forum
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Biography: http://www.lomborg.com/about/biography/
Bjørn Lomborg was born January 6, 1965.
M.A. in political science, 1991.
Ph.D. at the Department of Political Science, University of Copenhagen. 1994.
Assistant professor at the Department of Political Science, University of Aarhus, 1994-1996.
Associate professor at the same place, 1997-2005.
Director of Denmark's national Environmental Assessment Institute, February 2002-July 2004.
Organizer of the Copenhagen Consensus prioritizing the best opportunities to the world's big challenges, May 2004.
Adjunct professor at the Copenhagen Business School 2005-present.
Director for the Copenhagen Consensus Center 2006-present.

