Análise de dados ajuda a identificar tendências, desigualdades e grupos que demandam maior atenção, além de apoiar o planejamento e a avaliação de políticas públicas de prevenção

Durante o Setembro Amarelo, as discussões sobre prevenção ao suicídio ganham maior visibilidade. Em um tema complexo, que envolve diferentes fatores sociais, econômicos e de saúde, a Estatística desempenha um papel importante: transformar registros de saúde em informações que permitam compreender como os indicadores se comportam ao longo do tempo, em diferentes regiões e entre distintos grupos da população.

Mais do que produzir tabelas e gráficos, o trabalho estatístico pode contribuir para responder questões importantes de saúde pública. Onde determinados indicadores estão aumentando? Há diferenças entre faixas etárias, regiões ou outros grupos populacionais? As ações de prevenção adotadas estão associadas a mudanças nos resultados observados?

Camila Bertini Martins, Conselheira do CONRE-3, Estatística e Professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), resume essa contribuição: “A Estatística transforma dados em informações que ajudam a compreender a dimensão do problema, identificar mudanças ao longo do tempo e reconhecer populações que demandam maior atenção. A partir dessas análises, é possível subsidiar estratégias de prevenção, direcionar recursos e avaliar se as ações implementadas estão produzindo os resultados esperados”, diz.

Dos registros de saúde à identificação de padrões

Uma das possibilidades é acompanhar os indicadores ao longo do tempo e observar sua distribuição no território. O Conselheiro do CONRE-3, Estatístico e Professor livre-docente da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), Edson Zangiancomi Martinez, explica que estudos ecológicos podem empregar ferramentas de séries temporais e modelos espaço-temporais para identificar tanto padrões temporais quanto concentrações geográficas de ocorrências.

“Os modelos de séries temporais e os modelos espaço-temporais ajudam a identificar perfis mais vulneráveis ao suicídio e que merecem maior atenção de cuidados preventivos, e evidenciam regiões em que há a necessidade de maiores investimentos em estratégias de cuidados psicológicos e sociais”, ensina.

Ele cita como exemplo pesquisas internacionais que investigaram padrões associados a datas específicas: “Por exemplo, há estudos realizados no Japão e na Suíça, usando modelos de regressão de Poisson e modelos de Box-Jenkins, que identificam tendências de maiores ocorrências de suicídios no dia do aniversário da vítima.” O docente ainda ressalta que a literatura denomina esse fenômeno de birthday blues e que modelos estatísticos permitem investigar se padrões semelhantes aparecem em regiões ou grupos determinados.

No Brasil, diferentes sistemas de informação podem fornecer dados para essas análises. Martinez destaca o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), mantido no âmbito do DATASUS, que permite estudar os registros de óbitos segundo características como idade, sexo e localização geográfica.

A Professora Camila acrescenta outras fontes que podem ampliar essa visão: “Podem ser analisados dados de mortalidade por suicídio, notificações de violência autoprovocada, internações hospitalares, além de características como idade, sexo, raça/cor, região de residência e outros fatores sociais e demográficos. No Brasil, importantes fontes são o Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e o Sistema de Informações Hospitalares (SIH/SUS). A análise conjunta dessas fontes permite obter uma visão mais ampla do fenômeno.”

Identificar tendências não significa apenas contar casos

Uma das contribuições mais importantes da Estatística é permitir que os dados sejam analisados considerando a população, o período e as características de cada grupo. A simples observação de números absolutos nem sempre é suficiente para compreender o que está acontecendo.

“As análises também podem ser estratificadas por idade, sexo, raça/cor e região, revelando desigualdades que poderiam ficar ocultas em uma análise apenas da população total”, revela a Professora Camila, ao explicar que as análises podem comparar taxas entre períodos, grupos e regiões e utilizar métodos de séries temporais, regressões e modelos espaciais.

Martinez chama atenção para os avanços dos modelos espaço-temporais, incluindo abordagens bayesianas. Essas técnicas permitem analisar simultaneamente o comportamento dos indicadores no tempo e sua distribuição geográfica, além de incorporar características das populações e dos territórios.

“Estes modelos permitem ainda a inclusão de covariáveis relativas aos indivíduos, como sexo e idade, e às áreas geográficas, como indicadores sociais e econômicos. Os resultados então obtidos permitem destacar os grupos populacionais mais vulneráveis”, conta.

Esse tipo de resultado pode ajudar gestores a estabelecer prioridades, mas exige interpretação cuidadosa. Um grupo apresentar determinada taxa ou tendência em dados populacionais não significa que seja possível prever o comportamento de uma pessoa individualmente.

Como ressalta Camila, “associações observadas em dados populacionais não significam necessariamente uma relação de causa e efeito nem permitem prever o comportamento de um indivíduo.” Por isso, acrescenta que os resultados devem ser interpretados considerando a complexidade do fenômeno e evitando simplificações, estigmatização e conclusões deterministas.

Informação para orientar políticas públicas

Quando analisados de maneira adequada, os dados podem mostrar diferenças que seriam difíceis de perceber apenas pela observação de casos isolados. Isso permite orientar a distribuição de recursos, planejar ações específicas e acompanhar os resultados das políticas implementadas.

Martinez destaca essa relação entre Estatística e gestão pública: “Atualmente a estatística é reconhecida como um componente importante da saúde pública, capaz de organizar informações, identificar grupos vulneráveis, prever a ocorrência de eventos adversos a curto prazo e monitorar agravos.”

Para ele, as políticas de prevenção necessitam saber quais locais e grupos precisam receber maior atenção. “As políticas públicas de prevenção necessitam de informações sobre os locais e grupos que necessitam prioridade na distribuição de recursos, e a estatística é capaz de auxiliar na descrição dos perfis populacionais e das áreas mais suscetíveis.”

Camila também chama atenção para a avaliação das próprias políticas. “Além disso, o acompanhamento dos indicadores ao longo do tempo possibilita avaliar se uma política ou intervenção está associada à melhora dos resultados e se são necessários ajustes”.

Sem dados de qualidade, a análise também fica limitada

Para que todo esse processo seja confiável, entretanto, existe uma condição fundamental: a qualidade dos registros utilizados. Bases incompletas, classificações inadequadas ou demora na disponibilização das informações podem alterar a imagem que os dados apresentam da realidade.

“É fundamental. Se houver subnotificação, informações incompletas, erros de classificação ou grande atraso na disponibilização dos dados, a realidade observada pode ser diferente da realidade existente”, alerta Camila. Ela observa ainda que o crescimento de determinado indicador pode, em alguns casos, estar relacionado também à melhoria da capacidade do sistema de identificar e registrar ocorrências, e não somente a uma mudança real na frequência do fenômeno.

Martinez lembra que a avaliação da qualidade das bases de saúde considera diferentes dimensões, entre elas acessibilidade, cobertura, completitude, confiabilidade, consistência, oportunidade e validade. No caso dos dados de mortalidade, problemas de classificação das causas também precisam ser avaliados antes que sejam produzidas conclusões.

Para o estatístico, esse cuidado faz parte da própria formação necessária a quem trabalha com saúde pública. “Além do conhecimento teórico recebido nos cursos de graduação, o estatístico que trabalha neste tipo de investigação deve ter profundos conhecimentos epidemiológicos, a fim de evitar vieses que trazem confusão entre causas e efeitos, escolher de forma racional as variáveis que compõem os modelos de regressão e selecionar desfechos e indicadores de saúde adequados”.

Estatística e saúde não são mundos separados

A contribuição da Estatística para a prevenção também depende do diálogo com outras áreas. Dados precisam ser interpretados à luz do conhecimento epidemiológico, clínico, social e da realidade dos serviços de saúde.

Camila descreve essa integração: “Profissionais da saúde contribuem com o conhecimento clínico e com a compreensão do contexto em que os casos ocorrem; os estatísticos contribuem com o planejamento dos estudos, a análise dos dados, a avaliação das tendências e a quantificação das incertezas; e os gestores utilizam essas evidências para planejar, implementar e avaliar políticas e serviços.”

Martinez amplia essa ideia ao defender que o estatístico que atua nesse campo também faz parte da área da saúde. “Cabe observar que não temos atualmente, na saúde pública, um ambiente em que o estatístico está em um lado e o profissional da saúde em outro lado, com linguagens diferentes.”

Para ele, os desafios contemporâneos exigem justamente o contrário dessa separação: “Em conclusão, os problemas atuais em saúde, incluindo os suicídios, exigem conhecimentos interdisciplinares, distantes do obsoleto e fragmentado modelo de ‘profissional das exatas’ e próximos às concepções de equipes multidisciplinares em que as informações disponíveis são organizadas e debatidas igualmente por todos os membros.”

É nessa integração que taxas, séries históricas e modelos estatísticos deixam de ser apenas números. Quando produzidas a partir de registros de qualidade e interpretadas com responsabilidade, as análises podem revelar mudanças, desigualdades e necessidades que auxiliam profissionais e gestores a planejar ações de prevenção mais direcionadas e a acompanhar seus resultados.

 

Estatística, saúde mental e ambiente universitário

O suicídio e as questões relacionadas à saúde mental também estão presentes no ambiente universitário e precisam ser tratados com importância, cuidado e responsabilidade. A universidade, além de espaço de formação acadêmica e profissional, é um ambiente de convivência, permanência e construção de vínculos — e, por isso, também precisa estar atenta à saúde mental de sua comunidade.

Doris Fontes, ex-presidente e atual conselheira do CONRE-3, conta que percebeu a presença crescente dessa discussão também entre pesquisadores da área de Estatística.

“Em dois dos eventos que estive presente, RBRas, na UFES/Vitória-2025, e Semana da Estatística, na UNESP, vi vários pôsteres estudando fenômenos ligados ao suicídio ou tentativa de suicídio. É um tema extremamente delicado e não distante dos ambientes estudantis, sobretudo nas universidades”, revela.

A preocupação encontra evidências na própria realidade universitária. Em reportagem publicada em agosto de 2025, o Jornal do Campus, da USP, mostrou que o tema da saúde mental permanece presente no cotidiano da instituição e discutiu o papel da universidade na construção de ambientes de acolhimento e pertencimento. Entre 2016 e 2024, foram registradas 29 ocorrências envolvendo tentativas e suicídios consumados no campus Butantã, segundo dados obtidos pelo jornal junto à Superintendência de Prevenção e Proteção Universitária (SPPU).

A reportagem também ouviu a comunidade universitária por meio de um formulário com 80 respostas. Entre os participantes, depressão e ansiedade foram mencionadas por 78%, problemas financeiros por 61% e pressão acadêmica por 56% entre os fatores considerados relevantes para o adoecimento mental. Os dados se referem aos participantes do levantamento e ajudam a evidenciar a diversidade de questões que atravessam a experiência universitária.

Os relatos  são fortes. “Quase todos os dias penso no suicídio como solução para os meus problemas e raramente compartilho com alguém qualquer percepção pessoal sobre isso, uma vez que é perceptível a anomia instaurada na USP no tocante à saúde mental — indiferença esta que é impregnada, igualmente, em seus estudantes”.

Essa preocupação não é recente. Em 2021, reportagem divulgada pelo Instituto de Psicologia da USP já mostrava a universidade discutindo medidas de apoio aos estudantes, como a ampliação dos atendimentos do Escritório de Saúde Mental e a realização de uma pesquisa sobre a saúde mental dos alunos. Na ocasião, representantes da instituição destacavam a importância de fortalecer o apoio e o cuidado dentro da comunidade universitária.

Os exemplos reforçam que olhar para a saúde mental no ambiente universitário exige uma atuação multidisciplinar. A Estatística contribui nesse processo ao produzir e analisar informações que ajudam a conhecer a realidade da comunidade, acompanhar indicadores, identificar grupos e situações que demandam atenção e subsidiar ações de prevenção e cuidado.

Mais do que transformar registros em números, o desafio é utilizar a informação para compreender melhor a realidade e apoiar a construção de ambientes universitários mais atentos à saúde mental, ao acolhimento e à prevenção.

 

Fontes:

Jornal do Campus – USP – Não era só mais um: Suicídios nas universidades levantam debate do lugar da educação na saúde mental”

IP-USP – Casos de suicídios geram alerta e USP estuda serviços de amparo aos alunos

Serviço — Onde buscar ajuda

O Ministério da Saúde orienta que pessoas que necessitem de apoio podem procurar CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPA, serviços de urgência e hospitais. O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia em todo o Brasil.

 

Sobre os entrevistados

Camila Bertini Martins é estatística, mestre em Estatística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutora em Ciências, na área de Estatística, pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP). É professora do Departamento de Medicina Preventiva da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e atua em Estatística Aplicada, especialmente em Bioestatística e Metanálise. Camila também integra o CONRE-3 como conselheira efetiva.

Edson Zangiacomi Martinez é estatístico formado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mestre em Estatística pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutor em Ciências Médicas pela Unicamp. É professor associado, livre-docente, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP), onde atua em ensino e pesquisa, com ênfase em Bioestatística e métodos estatísticos aplicados à saúde. É conselheiro do CONRE-3

Doris Satie Maruyama Fontes é Estatística formada pelo Instituto de Matemática e Estatística da Universidade de São Paulo (IME-USP) e tem longa trajetória de atuação no CONRE-3, onde já ocupou diferentes funções de direção. É especialmente ativa na divulgação da Estatística e da profissão entre jovens, mantendo contato frequente com adolescentes e universitários por meio de feiras de profissões, atividades educativas, semanas acadêmicas e eventos científicos. Sua atuação aproxima estudantes da Estatística e acompanha de perto questões relacionadas à formação, à vida universitária e aos desafios enfrentados pelos jovens nesses ambientes.

 

Como a Estatística auxilia na prevenção do suicídio