Pioneira da demografia e profissional registrada no CONRE-3 desde 1969, Elza Salvatori Berquó deixa um legado que atravessa a universidade, as instituições científicas, as políticas públicas e a defesa dos direitos humanos
Especial | CONRE-3

A Estatística brasileira perdeu, em 16 de julho de 2026, uma de suas mais importantes construtoras. Elza Salvatori Berquó faleceu em São Paulo, aos 100 anos, depois de uma trajetória de quase oito décadas dedicada à ciência, à formação de pesquisadores e à compreensão das transformações da população brasileira.
Alguns nomes possuem representações importantes quando se fala em conhecimento, pois abrem caminhos que continuam sendo percorridos por muitas gerações. Elza Berquó pertence a esse grupo.
Matemática, estatística e demógrafa, ela mostrou que a Estatística não deveria ser tratada apenas como instrumento auxiliar da Matemática, da Medicina ou da Administração. Para Elza, os métodos estatísticos permitiam revelar fenômenos humanos, interpretar desigualdades e produzir evidências capazes de orientar decisões públicas.
A construção de uma área científica
Nascida em Guaxupé, Minas Gerais, em 17 de outubro de 1925, Elza formou-se em Matemática pela PUC-Campinas. Prosseguiu sua formação em Estatística e Bioestatística na USP e nos Estados Unidos, construindo uma trajetória acadêmica especialmente ligada à saúde pública e aos estudos populacionais.
Sua carreira na Universidade de São Paulo começou na área de Bioestatística da então Faculdade de Saúde Pública. Depois da morte prematura do professor Pedro Egídio de Oliveira Carvalho, em 1958, Elza assumiu a condução da cátedra e aprofundou uma concepção que marcaria toda a sua atuação: as aplicações estatísticas precisavam estar apoiadas em sólida formação matemática, sem perder de vista os problemas concretos da sociedade.
Naquele período, a Estatística ainda procurava seu espaço dentro da Universidade. Elza trabalhou para formar equipes, ampliar a pesquisa teórica e aproximar os métodos quantitativos das questões da Medicina, da saúde coletiva e da dinâmica populacional.
Por volta de 1963 e 1964, reuniu um grupo interdisciplinar dedicado aos estudos de população. Esse movimento resultaria no Centro de Estudos de Dinâmica Populacional, o Cedip, considerado o primeiro centro formal de estudos demográficos do país. Ali foram desenvolvidas pesquisas pioneiras sobre fecundidade, reprodução humana e transformações populacionais.
O Cedip não foi apenas um centro de pesquisa. Foi também uma escola. Sob a liderança de Elza, formou-se a primeira geração brasileira de pesquisadores em Demografia e iniciou-se a Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, levantamento domiciliar que investigou as relações entre condições sociais, modos de vida e comportamento reprodutivo.
Elza Berquó, Caio Dantas e a formação de uma geração

No fim da década de 1950, Elza procurava jovens com forte formação matemática para integrar a equipe da Faculdade de Saúde Pública. Carlos Alberto Barbosa Dantas, mais conhecido como Caio Dantas, foi indicado, entrevistado por ela e contratado como seu assistente em 1960. Em relato sobre o desenvolvimento da Estatística na USP, ele recordou que Elza pretendia criar um centro capaz de desenvolver a Estatística Matemática e oferecer fundamentos teóricos consistentes para as aplicações na saúde.
Elza também foi decisiva para que Caio realizasse seu doutorado em Estatística na Universidade da Califórnia, em Berkeley, com apoio de uma bolsa da Organização Mundial da Saúde. De volta ao Brasil, em 1966, ele contribuiu para a consolidação do IME-USP.
A relação entre Elza e Caio ajuda a compreender uma dimensão essencial de seu legado. Ela não apenas produzia conhecimento: reconhecia vocações, construía oportunidades de formação e criava condições para que novos pesquisadores assumissem responsabilidades acadêmicas.
Essa estratégia também envolveu Rubens Murillo Marques, que tornaria uma figura importante na expansão da área, especialmente na Unicamp, onde estruturou o currículo e propôs a criação do Bacharelado em Estatística, além de participar da implantação do primeiro curso de Bacharelado em Ciência da Computação do país.
Ciência e resistência
Elza participou intensamente dos debates sobre a reforma universitária da USP. Em 1969, durante a ditadura militar, foi aposentada compulsoriamente com base no Ato Institucional nº 5, ao lado de outros importantes professores e intelectuais brasileiros.
O afastamento, porém, não encerrou sua atividade científica. No mesmo período, Elza esteve entre os fundadores do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, criado como espaço de pesquisa independente e de resistência intelectual. Ali, deu continuidade aos estudos populacionais e às pesquisas sobre reprodução humana iniciadas no Cedip.
Também participou da criação da Associação Brasileira de Estudos Populacionais, a Abep, fundamental para a organização da comunidade científica da área. Em 1982, fundou, na Universidade Estadual de Campinas, o Núcleo de Estudos de População, Nepo, instituição que coordenou durante anos e que, desde 2014, leva oficialmente seu nome.
Estatística para compreender e transformar
A produção de Elza Berquó tornou-se referência em estudos de fecundidade, envelhecimento populacional, saúde reprodutiva, gênero, raça, sexualidade, juventude e direitos das mulheres.
Ela esteve entre as primeiras pesquisadoras a identificar a queda da fecundidade e o processo de envelhecimento da população brasileira. Coordenou pesquisas nacionais sobre saúde reprodutiva da mulher negra, comportamento sexual, HIV, mortalidade feminina, planejamento familiar e saúde da criança e da mulher.
Sua atuação ultrapassou os limites da academia. Elza integrou comissões consultivas dos Censos Demográficos, além de conselhos e comitês relacionados à saúde, à população e ao desenvolvimento. Presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento entre 1995 e 2004, consolidando o colegiado como espaço de articulação e formulação de políticas baseadas em evidências.
Elza Berquó no CONRE-3 e no CONFE
Elza manteve vínculo profissional com o Sistema CONFE/CONRE durante mais de cinco décadas. Seu registro no Conselho Regional de Estatística da 3ª Região data de março de 1969, ano decisivo tanto em sua trajetória pessoal quanto na história política e científica do Brasil.
Em 2021, foi uma das cinco profissionais agraciadas pelo Conselho Federal de Estatística com o título de Estatístico Emérito. A distinção é concedida a profissionais com pelo menos 20 anos de registro que tenham contribuído de maneira relevante para o desenvolvimento da Estatística no país.
Na homenagem, o CONRE-3 destacou especialmente sua contribuição para a formação da primeira geração de pesquisadores em Demografia e de docentes dos cursos de Estatística da USP, além do caráter inovador de suas pesquisas sobre população e saúde.
A trajetória de Elza também integra o trabalho de preservação da memória estatística realizado pelo CONRE-3. Iniciado em 2014, o projeto reuniu depoimentos e registros sobre o nascimento dos departamentos de Estatística da USP e da Unicamp e sobre os docentes que construíram a área no estado de São Paulo.
Seu vínculo com o Conselho não foi apenas o cumprimento de uma exigência profissional. Representou uma cientista que ajudou a ampliar o significado social da profissão de estatístico.
Um alicerce da Estatística brasileira

Elza Berquó não apenas ajudou a fundar instituições. Ela fundou maneiras de pensar.
Como mulher, construiu uma trajetória extraordinária em uma área durante muito tempo dominada por homens e em uma época marcada por profundas desigualdades e discriminações de gênero. Sua liderança, competência científica e capacidade de abrir caminhos fizeram dela um exemplo para gerações de mulheres que encontraram na Estatística, na Demografia e na vida acadêmica um espaço de atuação e transformação.
Mostrou que os números carregam histórias, que os dados revelam relações de poder e que a Estatística pode ser instrumento de conhecimento, cidadania e justiça social. Formou pesquisadores capazes de unir rigor metodológico, curiosidade intelectual e compromisso público.
Para o Departamento de Estatística do IME-USP, sua trajetória constitui um alicerce histórico. Para o CONRE-3 e para toda a comunidade profissional, representa a força de uma Estatística que não se afasta das pessoas. Para as mulheres na ciência, sua vida permanece como símbolo de coragem, excelência e resistência. Para a ciência brasileira, deixa uma obra que continuará produzindo perguntas, pesquisas e transformações.
Elza Berquó vive nas instituições que criou, nos profissionais que formou e nas políticas públicas que ajudou a orientar. Vive também em uma ideia fundamental: por trás de cada dado existe uma realidade humana que precisa ser compreendida para ser transformada.
